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Ilustração: Thomas Musmann / Coletivo Boitatá

“Cabrum”. Nos últimos tempos, basta ouvir este barulho que já me dá medo. Nunca tive medo de chuva, mas, ao ouvir tal onomatopéia, já começo a pensar na Nações Unidas alagada. Afinal, a via fica sob a água até com um espirro mais forte de um menino gripado. Em Bauru, as enchentes passaram a ser um dos meus medos mais recentes.
Mais recente, porém, não único. Pelo contrário. Ao longo dos meus 26 anos, nutri uma série de medos que me gelam a alma. E os meus temores vão desde os mais banais aos mais transcendentais.

Tenho medo de fantasmas. De perder meus pais. De ser assaltado. De ouvir aquele “vamos conversar” da pessoa amada. De perder meus amigos. De colocar a mão no bolso e não sentir o celular. De escrever uma crônica besta (seria esta?). De deixar de fazer o que gosto. De continuar fazendo o que gosto sem conseguir fazer bem. De acordar em forma de besouro como ocorreu com Gregor Samsa no excelente ‘A Metamorfose’, de Franz Kafka (que uma amiga sempre confunde com kafta e, por isso, só pede espetinho de carne nas barraquinhas). De morrer sozinho. De não ser um bom pai. De não ser um pai. De familiares batendo em meu portão dizendo que têm uma notícia para dar. De morder aquele nervo que faz até os dentes rangerem em meio ao strogonoff. De me deparar com um cachorro na estrada e não poder desviar. De amar e não ser amado. De acordar e ver dez mensagens no celular após aquela balada em que exagerei um pouco na ingestão etílica (eufemismo para “beber até cair”). De pensar que não fiz tudo para dar certo com a pessoa que amei. De chegar ao fim da vida e perceber que pouco de tudo aquilo valeu a pena.

Para a neurologia, o medo é produzido em uma amídala do cérebro e bastante importante para a sobrevivência. Para a psicologia, o medo é emocional e afetivo e bastante importante para a construção social. Para o meu pai, o medo é frescura e bastante importante para eu andar na linha. Para a minha avó Elza, o medo é…
“Cabrum”. Eis que, enquanto escrevo, sou interrompido por tal som angustiante. “CABRUM”. Eis que me desespero ao perceber que está cada vez mais intenso. “CABRUUUMMM”. Socorro! O barulho está tão forte que parece vir da sala ao lado de onde estou. “Vitor, vem me ajudar a arrastar esse armário! Agora!”.

Ufa. Prova que nem todo medo é real. Entretanto, se eu não for lá ajudar “agora”, é bem provável que não escreva mais por aqui em outra oportunidade.

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