Quando você senta no sofá ou na poltrona da cinema para assistir um filme, pode até não parecer, mas por trás das vozes em português dos personagem, há um dublador.

Não importa se você gosta de assistir filmes com legenda ou dublado, em algum momento um dublador já passou pela sua vida! Desenhos animados, séries, animes, filmes, documentários, eles estão em todos os lugares, trazendo acessibilidade para todos os brasileiros poderem aproveitar o entretenimento.

Mariana Pozatto é atriz graduada em Artes Cênicas pela Universidade estadual de Campinas (Unicamp). Morou em Bauru por 10 anos e hoje é dubladora do estúdio Dubbing Company.

Em seu currículo, ela possui diversos personagens dublados, entre eles a Summer, de “Rick and Morty”. Mariana contou um pouquinho para gente sobre como é a arte da dublagem e a sensação de ver seus trabalhos assistidos por milhares de pessoas.

Social Bauru: Há quanto tempo você trabalha como dubladora?

Mariana Pozatto: Trabalho como dubladora desde 2014. Comecei em um estúdio que, na época, era novo em Campinas, e hoje não existe mais. Aos poucos fui conseguindo me inserir no mercado de São Paulo e me firmando no mercado de Campinas. Hoje, além de dubladora, sou diretora de dublagem no estúdio Dubbing Company.

S.B.: Como surgiu a ideia de seguir para essa área?

M.P.: Em 2013, uma colega de faculdade me convidou pra fazer um curso de dublagem que estava sendo oferecido em Campinas mesmo. Eu gostei do curso e me apaixonei pela dublagem. A partir de então fiz outros cursos de dublagem em São Paulo e, sempre que posso, faço algum curso relacionado à voz.

S.B.: O que é dublagem?

M.P.: A dublagem é a arte de trazer o conteúdo já existente em outra língua para a língua local (no nosso caso o português) sem que se altere o sentido original ou da obra. Além de tornar o conteúdo mais acessível às 7,2% das pessoas que ainda são analfabetas no Brasil e às pessoas com deficiência visual, a dublagem é responsável por aproximar o conteúdo do público.

Não á toa que, segundo a pesquisa realizada pela Netflix, a grande maioria dos espectadores brasileiros preferem assistir a Netflix dublado. Para que a obra dublada tenha um melhor entendimento e inspire maior empatia no público brasileiro, sempre que possível, fazemos adaptações no texto, incluímos expressões, piadas e referências brasileiras. Essa é uma das minhas partes preferidas do processo!

S.B.: Mas o que é todo o processo de dublagem?

M.P.: Bom, isso pode variar um pouco de estúdio pra estúdio, mas em geral é assim: uma vez que o contrato entre o cliente e a casa de dublagem está firmado, o estúdio recebe o material referente à obra. Esse material costuma ser o vídeo, o script, a trilha sonora, os efeitos sonoros e o showguide, que é basicamente um “manual” como o cliente quer que a dublagem seja feita.

Então, o vídeo e o script vão para o tradutor, e o diretor estuda o showguide. Quando a tradução chega, é hora de escalar os atores que vão dar voz aos personagens e revisar a tradução. Essa responsabilidade geralmente é do diretor. Feito isso, agendam-se as gravações. Quando as gravações já estão concluídas; é a vez do mixador (o técnico de áudio responsável pela mixagem) finalizar o projeto.

S.B.: E o que exatamente um dublador faz? O que acontece quando o dublador entra no estúdio?

M.P.: Quando o dublador chega no estúdio ele ainda não sabe o que vai dublar e quem vai dirigi-lo. É na “pedra”, um informativo geralmente colocado num mural, que o ator pode ver no que e com quem vai trabalhar naquele dia. Em seguida o diretor explica do que se trata a obra que vão dublar; o dublador assiste trecho por trecho, ensaia, entende a intenção do personagem, a razão e o objetivo que ele tem em falar aquilo, com quem ele está falando, em que volume e em qual duração de tempo a fala acontece.

E então gravação é feita. Se alguma coisa está descolada da imagem, ou da intenção do personagem; se alguma coisa, por qualquer motivo, não fica legal, o diretor dá os toques necessários para que seja melhorado. O técnico de áudio também tem um papel muito importante dentro dessa etapa! É ele quem cuida da qualidade da captação das falas, respirações e reações do dublador. Dublagem é um trabalho em equipe.

S.B.: Você já foi a voz da Miki em “Devilman Crybaby”, quais outros personagens você já dublou?

M.P.: Eu já dublei muitos personagens! Mas a minha personagem preferida, sem dúvida, é a Midge Maisel, interpretada por Rachel Brosnahan, em “A Maravilhosa Sra. Maisel”, uma série original da Amazom Prime, e também, serie mais premiada da atualidade. A Midge foi um desafio muito gostoso, porque ela é uma mulher à frente de seu tempo; rápida, tanto na fala como no pensamento, além de ser muito engraçada. Foi uma honra e um grande desafio fazer jus à interpretação brilhante de Brosnahan!

Outra personagem pela qual tenho muito carinho é a Summer, de “Rick and Morty”. Assim como a série, Summer é ácida, inteligente e desbocada. É uma adolescente vivendo todos os conflitos comuns da adolescência e conflitos absurdos e hilários de sua família, a qual pode-se dizer que, mesmo com um cientista genial e maluco, representa muitas muito bem a maioria das famílias contemporâneas.

S.B.: Qual a sensação de poder dublar um personagem e saber que muitas pessoas vão ouvir a sua voz?

M.P.: A sensação é de responsabilidade! Saber que minha voz vai ser associada a personagens amados e odiados na imaginação de milhares de pessoas, que vai marcar gerações, é ao mesmo tempo assustadora e muito gostosa! Essa responsabilidade me anima a fazer cada dia o melhor trabalho que eu posso e estar sempre à procura de me aprimorar.

S.B.: O que uma pessoa deve ter em mente ao seguir a área da dublagem?

M.P.: Deve-se ter a consciência de que dublagem é um trabalho técnico e artístico. O trabalho do dublador é um trabalho de ator. Portanto, se uma pessoa quer ser dubladora, ela deve, antes de mais nada, estudar teatro, para aprender a atuar. Esse é um aprendizado indispensável, e spoiler: não acaba nunca!

O aspirante a dublador deve ter o registro profissional de ator, comumente conhecido como DRT. É como se fosse a OAB dos advogados. Deve também cuidar da sua voz. Não existe voz feia para a dublagem, mas o dublador deve ser capaz de articular bem as palavras e ter resistência vocal. Versatilidade vocal também ajuda bastante. Além de tudo isso, entender, na prática, como funciona o trabalho de dublar também é necessário. Para isso os cursos de dublagem são extremamente úteis!

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