Um dos filmes exibidos no 56º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em dezembro foi ‘Cidade by Motoboy’, dirigido por Mariana Vita e financiado pelo PROAC. A obra mostra um motoboy de aplicativo andando pela cidade em uma sexta à noite e descobrindo como os muros são formas de segregação social. A história conta também como só o amor pode aliviar esse peso.

É uma proposta que aborda uma temática atual na sociedade. “Quando começamos a elaborar o roteiro, saíram várias notícias de violência contra motoboys. Ao mesmo tempo, existia a discussão da precarização do trabalho deles. Foi um ponto de partida para entendermos como essas questões afetam a saúde mental, o que amplia para outras esferas e camadas sociais”, diz a diretora, que roteirizou o filme em conjunto com Denis Augusto.

Mariana Vita (foto: Gabriel Samezina)

O assunto pesado é entremeado pelo afeto entre as pessoas, no caso, um casal homessexual. “Os protagonistas são dois homens gays e, se tratando de viver uma realidade dura e estressante, encontrar abrigo, carinho e acolhimento em um amor transgressivo é algo muito bonito”, acrescenta Mariana.

Produzido por profissionais de Bauru, Assis e Rio Claro, com apoio da produtora bauruense Estúdio 2b, ‘Cidade by Motoboy’ representa uma conquista para o cinema do interior paulista. 

Divulgação do filme (foto: Reprodução/Instagram)

O filme foi um dos 12 selecionados para a Mostra Competitiva, entre 1.269 inscrições de curta-metragens. “Poder estar neste festival, que exige alta qualidade técnica e estética reafirma o potencial do cinema feito no interior profundo do estado de São Paulo”, comenta a diretora.

Cidade by Motoboy foi filmado no interior paulista (foto: Gabriel Samezima)

Mais de 10 anos de produtora

A exibição no festival é também um prêmio ao trabalho de mais de 10 anos da 2b, criada pelo casal Liene Saddi (formada em Midialogia e com experiência em programação cultural do Sesc) e André Turtelli (formado em Design).

“Nos conhecemos na TV Unesp em 2009. Em 2012, decidimos desenvolver projetos culturais e audiovisuais, principalmente videoclipes e exposições. Com o passar dos anos, em contato com outros colegas de Bauru, pudemos começar a direcionar nossas atividades para projetos autorais também”, conta Liene.

Liene Sadi (foto: Divulgação)

Como ela explica, a proposta é atuar em diferentes vertentes do audiovisual. A produtora trabalha em projetos institucionais, obras culturais – por exemplo documentários e videoclipes -, formação (por meio de cursos e oficinas) e difusão.

Além disso, eles fazem parte do Plano Conjunto – Coletivo Audiovisual de Bauru, rede de produtores locais voltada a estimular o setor no município.

Produção de cinema

A 2b também é conhecida pelas produções de curtas e longas metragens, incluindo obras como ‘Dafnes’, releitura do mito de Apolo e Dafne sob uma perspectiva feminina; ‘Alloumaza: a comunidade sírio-libanesa em Bauru’, que ainda será lançado; e ‘Ressentimento’, sobre o peso das relações de família e a violência contra a mulher.

O portfólio inclui ‘Cidade by Motoboy’ e ‘Empoçados: os rios contam Bauru’. Este último aborda a história da cidade a partir do ponto de vista dos rios, e levou o prêmio de melhor curta documental na 31ª edição do ECOCINE – Festival Internacional de Cinema Ambiental. 

Cena de Empoçados (foto: Reprodução)

Exibindo um filme

A 2b atua em todo tipo de produção. “Já produzimos projetos com equipes enxutas até filmes e eventos com dezenas de pessoas”, explica Liene.

Para chegar a exibição de um filme no ar, o trabalho pode demorar anos e envolve um esforço coletivo. Começa pelo processo de pesquisa do tema e desenvolvimento de argumento e roteiro, passa pelo planejamento para efetivamente ‘tirar a ideia da gaveta’ e as filmagens em si, e segue até a pós-produção, com trabalho de edição, mixagem, etc.

Isso apenas para finalizar a obra! Depois de pronto, é preciso pensar um plano de circulação e divulgação do filme.

Os desafios do cinema

Por isso, apesar dos resultados em festivais, a produtora enfatiza que fazer cinema no Brasil ainda é um trabalho pesado. “Não apenas em Bauru, mas em qualquer cidade do interior no Brasil temos o desafio de manter a constância da produção de cinema”.

Segundo ela, do começo ao fim existem obstáculos. “Depende de fatores estruturais que vão desde o financiamento das obras até a existência de janelas de exibição para circulação destas obras e formação de público para o cinema nacional”, finaliza.

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