Com a estreia e sucesso de Duna: Parte 2, o universo criado por Frank Herbert finalmente atingiu seu ápice cultural. Apesar de já estarmos na terceira adaptação de sua história, parece que finalmente ela ganhou um devido espaço. Muito pela excelente visão e direção de Denis Villeneuve, a obra que por muitos era “inadaptável” entregou o melhor filme do ano. E olha que ainda estamos em março. 

O primeiro filme passou um pouco despercebido, talvez porque ele foi lançado em um momento pós pandêmico e que muitas pessoas ainda estavam com receio de uma sala de cinema. Com um ritmo mais lento, uma trilha pesada e gigante visualmente e com um elenco de peso, tudo isso acabou não sendo um fator preponderante para um sucesso. O filme deu certo, mas não fez a bilheteria esperada e pouco reconhecida nas premiações. Parecia uma premissa de um futuro não muito otimista. Porém, Villeneuve insiste em seu projeto e entrega uma segunda parte digna de sua responsabilidade. Duna: Parte 2 é o ápice da construção de um universo em seu esplendor, algo que não se via desde as primeiras adaptações de Harry Potter e o meu universo favorito da ficção: A Terra Média de J. R. R. Tolkien – O Senhor dos Anéis.

Em Duna: Parte 2, Paul Atreides (Timothée Chalamet) se une a Chani (Zendaya) e aos Fremen enquanto busca vingança contra os conspiradores que destruíram sua família. Uma jornada espiritual, mística e marcial se inicia. Para se tornar Muad’Dib, enquanto tenta prevenir o futuro horrível, mas inevitável que ele testemunhou, Paul Atreides vê uma Guerra Santa em seu nome, espalhando-se por todo o universo conhecido. Enfrentando uma escolha entre o amor de sua vida e o destino do universo, Paul deve evitar um futuro terrível que só ele pode prever. Se tudo sair como planejado, ele poderá guiar a humanidade para um futuro promissor.

Sem dar spoilers sobre a trama, mas é fato que ao término deste filme, a vontade de terminar os livros só aumentou. Até pela diferença da adaptação e principalmente pela capacidade que os dois filmes possuem em manter o interesse no universo. Com muito mais ação do que o primeiro. O filme mantém a qualidade gráfica e sonora do primeiro, só que com muito mais lutas e ação e deixa aberto para um terceiro filme. A parte negativa é que ele é lento, o que pode entediar os mais desavisados e você sente o tempo do filme igual ao primeiro, mas isso faz parte da imersão.

Imersão seja o melhor termo para relacionar o filme, 0 universo se expande, os personagens existentes ganham mais espaço e mais desenvolvimento. Apesar de não ter gostado tanto do caminho e interpretação do  Javier Barden, no geral, tudo foi ao limite da expansão. 

Um dos pontos mais fortes da história é a dupla interpretação e a dualidade de cada personagem e suas atitudes pautam no decorrer da história. A metáfora sobre religião está mais presente em momentos chave, e assim como nos livros, o debate sobre “O Escolhido” é composto por ações que podem significar a luz ou as trevas. A personagem da Rebecca Ferguson é o retrato disto. Fazendo um contraponto, a personagem da Zendaya é o oposto. Porém, tudo depende do contexto. O que é fanatismo religioso e o que é política? Parece que estamos em 2024 discutindo a política e o mundo atual, mas não. Afinal, a “especiaria” citada no filme e livro, nada mais é que o paralelo com a crise e guerra do petróleo na década de 50. 

Duna tem a capacidade de dialogar com a fantasia, a política e a religião, por este motivo essa obra de mais de 30 anos conseguiu fascinar tantas gerações e justifica a dificuldade de uma adaptação para outros meios, não é atoa que só agora em 2024 e após a primeira parte, existe vida para Duna. A real é que para adaptar a principal obra de Frank Herbert, precisaríamos de pelo menos mais uns dois filmes. 

E aos novos personagens, todos muito bem introduzidos e com seus propósitos bem definidos e ao término, fica preparado para o próximo capítulo. Podemos dizer que é um dos melhores filmes do Villeneuve. Mas afinal, quem é o diretor?

Denis Villeneuve é um cineasta franco-canadense nascido em 3 de outubro de 1967 em Trois-Rivières, Québec, Canadá. Ele é conhecido por dirigir e escrever filmes notáveis,  que está se tornando uma referência para sua geração, tem em seu currículo filmes como:

  • “Incêndios” (2010): Um drama poderoso que explora a história de gêmeos em busca de sua mãe biológica no Oriente Médio. O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011. Não está em nenhum streaming hoje no Brasil.
  • “Sicario” (2015): Um thriller tenso sobre o combate ao tráfico de drogas na fronteira entre os EUA e o México. O filme cria uma atmosfera sombria e cheia de suspense. Está na Netflix e no Prime.
  • “A Chegada” (2016): Um filme de ficção científica que aborda a comunicação com seres extraterrestres. Sua direção meticulosa e a atuação de Amy Adams receberam elogios da crítica e do público. Está na Netflix e no Prime.
  • “Blade Runner 2049” (2017): A sequência do clássico “Blade Runner”, que aliás, é um dos meus filmes favoritos. A história que expande o universo distópico e visualmente impressionante criado por Ridley Scott. Está na Netflix.
  • “Duna” (2021): Uma adaptação cinematográfica do épico de ficção científica de Frank Herbert. Está no Max e no Prime.

Além de filmes como: O Homem Duplicado (2014) e Os Suspeitos (2013) que ambos são incríveis. Villeneuve é um cineasta talentoso que continua a surpreender o público com sua habilidade em contar histórias cativantes e visualmente impactantes. Ele, Christopher Nolan e Bong Joon-ho são os diretores mais promissores da atualidade.

Além de uma baita direção e composição de cena, um dos atributos mais importantes para a imersão em uma história é a trilha sonora. E Duna tem um compositor a altura: Hans Florian Zimmer, ou mais conhecido, Hans Zimmer.

Compositor alemão amplamente reconhecido por suas trilhas sonoras de filmes. Sua carreira musical teve início com as bandas Ultravox e The Buggles. Nos anos 80, Zimmer começou a compor e produzir músicas para trilhas sonoras, e desde então, ele criou músicas para mais de 150 filmes. 

Zimmer é um verdadeiro mestre na arte de combinar sons eletrônicos com arranjos orquestrais tradicionais. Ele possui uma impressionante coleção de mais de 110 prêmios provenientes de 178 indicações ao longo de sua carreira. Ele é o segundo compositor de trilhas sonoras para filmes mais premiado da história, ficando atrás apenas de John Williams. Suas principais trilhas são: 

  • O Rei Leão;
  • Gladiador;
  • Conduzindo Miss Daisy;
  • Batman – O Cavaleiro das Trevas;
  • Piratas do Caribe: O Baú da Morte;
  • O Último Samurai;
  • O Código Da Vinci;
  • Interestelar;
  • Rush – No Limite da Emoção;
  • 12 Years a Slave;
  • O Homem de Aço.

Zimmer coloca intensidade na trilha de Duna, ela pontua todos os momentos dos dois filmes, apesar de achar ela mais potente no primeiro. No Parte 2 ela se mantém incrível e imersa.

Mas voltando para Duna, ao fim do segundo filme, começa a se especular quando e como será lançada a terceira e aparentemente, última parte. Existe a possibilidade do terceiro filme adaptar o livro “O Messias de Duna” que entrega o desfecho de toda essa história.O que nos resta, é aguardar…

Adaptações

Apesar do sucesso, poucos conhecem que Duna já teve uma adaptação lá de 1984, dirigida por ninguém mais, ninguém menos que o David Lynch. Um dos maiores e mais controversos diretores da história do cinema.

O filme é esquisito, porém com um ar autoral bem marcante e bem, mas bem datado. Ele conseguiu resumir os dois filmes atuais em um só. Mas tudo é muito ruim, mas muito ruim. 

O filme é protagonizado por Kyle MacLachlan e Jürgen Prochnow. Os efeitos são o puro suco dos anos 80 (lado b) que com o tempo, não conseguiu se transformar em um clássico cult, pelo contrário, se tornou uma piada. Não vale a pena, e no Brasil, não está em nenhuma plataforma de streaming. Detalhe, Patrick Stewart, Max von Sydow e o Sting estão no elenco. Até 2021 essa é a única adaptação de Frank Herbert…

Frank Herbert e legado

Frank Herbert, cujo nome completo é Frank Patrick Herbert Jr., foi um escritor de ficção científica e jornalista americano. Ele é mais conhecido por sua obra “Duna” e os cinco livros subsequentes da série. Suas principais obras são:

  • Duna

Sinopse: A saga se desenrola em Arrakis, um planeta desértico. Aborda temas como sobrevivência humana, evolução, ecologia e a interação entre religião, política e poder. 

  • Messias de Duna

Sinopse: Continua a história após os eventos de “Duna”. Explora as consequências das ações dos personagens e a ascensão de um messias.

  • Filhos de Duna

Sinopse: A saga continua com a próxima geração da família Atreides. Intrigas políticas, poder e profecias desempenham um papel crucial.

  • Imperador Deus de Duna

Sinopse: Acompanha o reinado do Imperador Paul Atreides e os desafios que ele enfrenta para manter o poder.

  • Hereges de Duna

Sinopse: A série continua com novos personagens e reviravoltas. Explora temas de mudança, fanatismo religioso e evolução.

  • Herdeiras de Duna

Sinopse: O último livro da série, escrito por Brian Herbert (filho de Frank Herbert) e Kevin J. Anderson. Continua a história após os eventos de “Hereges de Duna”.

Além da série “Duna”, Frank Herbert também escreveu outros livros, como “The Dosadi Experiment”, “The Godmakers”, “The White Plague” e colaborou com Bill Ransom em obras como “The Jesus Incident”, “The Lazarus Effect” e “The Ascension Factor”. Todos estão disponíveis na Amazon, livro físico ou kindle.

Duna e a cultura pop

Se você é fã de filmes de ficção científica, provavelmente já ouviu falar sobre as semelhanças entre os universos de Duna e Star Wars.

As similaridades não são fruto de mera coincidência – o próprio idealizador de Star Wars, George Lucas, admitiu ter se inspirado na obra do escritor Frank Herbert, lançada em 1965, para criar sua trama e personagens, e desenvolver a complexidade de toda a história de Guerra nas Estrelas. Além de Star Wars, diversos outros produtos da cultura pop sofreram forte influência de Duna.

Anteriormente, as obras sobre ficção científica eram mais focadas em explorar as evoluções tecnológicas, computadores e demais aparatos típicos, e Duna, de maneira bastante inovadora, resolveu abolir todo e qualquer tipo de inteligência artificial de seu universo imaginado. O resultado? Uma história centrada em aspectos humanos e sociais, capaz de despertar reflexões sobre ecologia, política e espiritualidade. 

O IMPÉRIO, ARRAKIS | TATOOINE, SHAI-HULUD | SARLACC; A VOZ | A FORÇA; HAN SOLO | DUNCAN IDAHO – São espelhos do universo de Duna e Star Wars.

George Lucas bebeu muito da fonte de Frank Herbert para compor a trilogia clássica de Star Wars, porém com propósitos diferentes. Um focou na ironia política através de metáforas e outro foi para o lado mais comercial. Não é atoa que Star Wars é muito mais conhecido, mas para quem gosta, sabe que Duna é o pai da cultura pop.

Assim como a saga O Senhor dos Anéis, do escritor J. R. R. Tolkien, é uma das maiores influências do gênero fantasia, Duna é um marco da ficção científica, referência para diversas produções que sucederam o seu lançamento.

Por fim, Duna: Parte 2 completa a jornada apresentada no primeiro filme, potencializa em todos os aspectos do primeiro filme. Montagem, edição e efeitos em sua excelência. A trilha é pesada, mas não invasiva, ela pontua todas as cenas e o elenco está perfeito. Com uma boa direção e roteiro, o filme satisfaz pela história e termina com um sentimento de fim de um capítulo. A dualidade se mantém para cada interpretação e você decide o significado para cada personagem, essa é a principal característica dos livros e que está presente no filme. Mas aqui, ao final da coluna, me coloco na posição de criticar Timothée Chalamet… Não rolou pra mim!

Deve estar nas premiações em 2025 em peso. Lembrando que Duna era pra ter estreado em 2023, mas por conta da greve dos roteiristas, ficou para 2024, mas a espera valeu a pena. 

Duna no cinema é uma outra experiência, assim como Avatar, sim, vá ao cinema! Eu sei que está caro e a pessoa da poltrona da frente está fazendo stories durante o filme o tempo todo. Mas a imersão proporcionada é proposital e você perderá assistindo em casa. Ou, não, sei lá,  ¯\_(ツ)_/¯ – assista onde você quiser, mas assista!

Avaliação

Duna: Parte 2, 2024 

Veredito: 5/5

Onde assistir: Nos cinemas

Criadores: Denis Villeneuve

Agregador no Rotten Tomatoes: 93%

Avaliação IMDB:9,0/10

Duna: Parte 2 | Trailer Oficial (youtube.com)

Confira mais textos do colunista: www.socialbauru.com.br/author/gabrielcandido

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