Foi durante a sua pesquisa de mestrado, que a bauruense Ana Heloíza Pessoto começou a avaliar o quanto as mulheres ficam em segundo plano quando o assunto são as produções audiovisuais. Claro que não só em produções audiovisuais, mas o machismo está lá também. Aliás, repasso a indagação da Ana a você, leitora e leitor: quantos filmes, animações, curtas, que têm mulheres na produção, você conhece? Sabe o nome de alguma diretora brasileira? E de uma produtora, mulher e do Brasil?

Pois bem: assim nasceu o projeto A Cineasta, um aplicativo que funcionará como catálogo de produções audiovisuais feitas por mulheres brasileiras cis e trans. O projeto foi contemplado pela Secretaria do Audiovisual e o Ministério da Cultura no Edital App pra Cultura em 2017.

Nós batemos um papo com a Ana para conhecer mais detalhes deste projeto superbacana! Veja só:

Como funciona o projeto A cineastA?
A CineastA será um aplicativo que oferece um acervo com informações catalogadas de obras audiovisuais brasileiras dirigidas por mulheres, cis e trans. Sua importância está em permitir que as obras e as realizadoras sejam reconhecidas e valorizadas no cenário de produção audiovisual. O catálogo inclui os indicadores de região, cor da pele, ano de produção e equipe feminina. A base de dados está sendo desenvolvida de duas formas: o cadastro colaborativo, em que as pessoas podem cadastrar suas obras ou de outras mulheres a partir do preenchimento do formulário online e o cadastro pela equipe de curadoria. Esse processo ocorrerá até dia 30 de abril.

E como você teve a ideia deste projeto?
A ideia surgiu junto com os resultados da pesquisa que desenvolvi no Programa de Mestrado em Comunicação da Unesp. Na minha dissertação, “De coadjuvante a protagonista? Os desafios da diversidade cultural, da produção audiovisual independente e regional na TV Paga”, avaliei a eficiência da Lei da TV paga quanto aos princípios do estímulo à produção regional, independente e diversa. Descobri que entre as 75 produções exibidas que estudei, séries e longas-metragens, apenas 11 tinham sido dirigidas por mulheres, todas brancas, ou seja, menos de 15%. Esse dado me chamou bastante atenção e fiquei pensando sobre como dar mais visibilidade para os produtos dirigidos por brasileiras de todas as etnias. O edital do App pra Cultura me pareceu uma forma interessante de resolver esse problema.

Ele tem a parceria do Ministério da Cultura, correto? Como você conseguiu essa parceria e em quê ela te auxilia?
Sim. Enviei o projeto A cineastA para o Edital App pra Cultura (2017), da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, que tinha como objetivo fomentar aplicativos ou jogos eletrônicos em duas categorias: cultura livre e audiovisual. A cineastA foi contemplado pelo Edital, com a maior pontuação e ocupando primeira colocação na categoria audiovisual no país todo. O Ministério nos entrega o orçamento para o desenvolvimento do projeto e entregamos o aplicativo pronto em 4 meses.

O projeto é sem fins lucrativos, correto? Ele permanecerá assim ou você tem o projeto de no futuro comerciá-lo de alguma forma?
Por ser financiado pelo Ministério da Cultura e Governo Federal, o aplicativo será disponibilizado para download gratuito por tempo a ser determinado pelo Ministério. Tenho algumas ideias de como dar continuidade ao projeto em outras frentes com outros financiamentos, dada a importância e necessidade de destacar as produções femininas, mas por enquanto estou focada no desenvolvimento do aplicativo.

Os cadastros depois estarão em um aplicativo ou em uma plataforma online?
Inicialmente, A cineastA será um aplicativo, mas tenho intenção de buscar novos financiamentos para disponibilizar as informações em outras plataformas também.

Você é formada em áudio visual, né? Ter um projeto como esse era uma vontade antiga?
Sou formada em Rádio e TV pela Unesp e sempre amei a produção audiovisual brasileira. Durante o curso, comecei a perceber que haviam bastantes mulheres no curso, entretanto, nas aulas falávamos majoritariamente de obras de diretores homens. Minha intenção com minhas pesquisas tem sido, de alguma forma, poder influenciar mudanças nesse setor. Principalmente na questão do acesso e distribuição às produções independentes e narrativas não-hegemônicas, para além do monopólio de grandes grupos midiáticos. A importância da democratização da informação também dentro do entretenimento. Acho que uma palavra-chave aqui é representatividade.

Como você vê a importância dele entre as profissionais de audiovisual?
Dado o momento histórico de luta feminina por protagonismo nas artes, políticas públicas estão se direcionando à incentivar as mulheres neste setor. Um exemplo é a categoria Cármen Santos, no Edital de Apoio à Produção de Curta-Metragem e muitos outros. Entretanto, ainda há problemas na distribuição e acesso dessas obras. O principal objetivo do aplicativo é de facilitar a pesquisa e o acesso do público a essas produções. Essas mulheres poderão ter suas obras em uma vitrine, ampliar o acesso a elas e poderão ser reconhecidas pelo seu trabalho. Ter um espaço só com diretoras brasileiras dá a elas o protagonismo. O aplicativo também será um catálogo importante de informações para produtoras no sentido de trazer uma ficha técnica, podendo trazer destaque a sua equipe, além de permitir a busca por profissionais específicos em uma produção.

Qual a sua expectativa?
Minha expectativa é de desenvolver um aplicativo que dê visibilidade à produção audiovisual brasileira dirigida por mulheres, podendo incluir produções diversas. Que A cineastA seja uma ferramenta de inclusão e acesso.

E tem um prazo para cadastrar os produtos ou é livre, a qualquer momento é possível cadastrar?
A fase de cadastro tem um prazo: 30 de abril.

Eu comentei com você que vi compartilhamentos no meu Facebook sobre o projeto. Você deve ter visto ainda mais… como está sendo ver a repercussão?
Estou muito feliz com a repercussão positiva do projeto. Percebi que o setor anseia por mais iniciativas voltadas à valorização e facilitação de acesso ao audiovisual dirigido por mulheres. Estamos podendo ver isso nas campanhas de luta feminina como no Oscar e em outras premiações. As mulheres estão lutando pelo seu espaço de representação. Por isso percebi o interesse no projeto, por curtidas na fanpage, de mulheres, produtoras ou não de conteúdo, e também de homens, o que é bem bacana.

Para conhecer mais o projeto, acesse: www.facebook.com/acineastabr

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