Filme surpreendente sobre talento culinário e obsessão, ego e de certa forma, uma alegoria sobre as camadas sociais em formato de metáforas. Nos últimos anos tivemos alguns exemplos disso, como “O Poço” (2017) e o vencedor do Oscar “Parasita” (2019). O grande chef promove jantar exclusivo para poucos convidados em uma ilha deserta. A protagonista não deveria estar lá, pois não fazia parte da lista, sendo uma convidada de última hora. Drama, suspense e thriller psicológico em doses perfeitas e uma pitada de humor.

Em O Menu, a jovem Margot (Anya Taylor-Joy) é convidada por Tyler (Nicholas Hoult) para viver uma experiência inesquecível em um dos restaurantes mais conhecidos e exclusivos do mundo. Chamada às pressas por Tyler após o rapaz terminar um relacionamento pouco antes do evento, Margot logo percebe que aquele não é o seu lugar. Lá, a cozinha é liderada pelo famoso chef Slowik (Ralph Fiennes) e o estabelecimento fica localizado em uma ilha distante, na qual todos os seus ingredientes frescos são cultivados.

Junto de outros clientes autointitulados especiais, como um astro de cinema, funcionários do mercado financeiro, uma crítica gastronômica e um casal milionário, Margot e Tyler entram no bizarro mundo comandado pelo chef Slowik. E o que deveria ser apenas uma noite de degustação de comida especial e bons drinks, torna-se um verdadeiro inferno para os convidados, com um cardápio farto, porém algumas surpresas chocantes.

Assim como a premissa de servir pratos com o intuito de saborear, degustar, experimentar e acima de tudo, sentir, o filme metaforicamente serve em todos os sentidos, pois é incrivelmente bom. Afinal, como o próprio chef diz “é para saborear, não comer”.

Foto: Searchlight Pictures/Divulgação

Ao mesmo tempo, o filme também faz uma analogia ao temperamento sobre a cozinha profissional, algo que também acompanhamos no incrível “O Urso” (leia nossa crítica aqui). É estúpido pensar que o filme aborda um tema real, e relevante em todos os aspectos da vida do homem moderno: a arte e a comida.

Claro que existe também uma licença poética nos personagens, quase com um tom estereotipado, mas sempre na beira do real com um tom de fábula. Lembrando em certos pontos uma peça teatral, onde os personagens representam uma classe social com suas características tão afloradas e suas atitudes. Seja nos personagens representados como os mais ricos que conseguem tudo com seu dinheiro, ou a própria indústria da crítica que busca o tempo todo a perfeição, com seus egos e sua superficialidade. Uma pequena parcela da elite, retratada de forma tão fútil e idiotamente real.

O filme é dirigido pelo iniciante diretor britânico Mark Mylod é mais conhecido por seu trabalho nas séries de televisão “Succession”, “Game of Thrones” e “Shameless”.

Sempre esteve mais envolvido com séries do que com longas-metragens. Dessa forma se criou uma grande dúvida e uma grande expectativa em como seria seu mais novo filme, o que ele poderia nos entregar.

Foto: Searchlight Pictures/Divulgação

Embora tudo ocorra em um ambiente gastronômico, o filme consegue abordar diversos temas com profundidade. E a gente acompanha toda essa estranheza pelos olhos da única pessoa, dentre todos que não deveria estar lá, a Margot, interpretada pela excelente Anya Taylor-Joy. Que causa estranheza até pelo próprio Chef Slowik (Ralph Fiennes) que a questiona o tempo todo sobre sua presença.

Um filme com uma proposta apetitosa, uma belíssima apresentação, ingredientes de primeiríssima qualidade e perfeitamente harmonizados, aquele trabalho que satisfaz nossas expectativas, servido no tempo correto e que deixa um gostinho de quero mais, apesar da estranheza no final, o que é proposital, é claro.

A direção é excepcional ao adotar uma montagem semelhante ao que vemos corriqueiramente em reality shows de culinária, dividindo a história em capítulos no formato de apresentação dos pratos servidos. Que aliás, a cada prato, um contexto da própria história e o desfecho de cada ponto são todos entregues logo na premissa do prato servido, mesclando a sensação de estranheza e familiaridade.

“A natureza é eterna. Nós somos nanossegundos no meio disso tudo”. O Menu ou The Menu é uma obra bastante interessante, ainda que seus questionamentos não sejam novos, na verdade bem clichês, mas contada de uma maneira nova. A tensão crescente na primeira metade do filme, sua conclusão casa muito bem, mesmo que existam momentos de incerteza quanto à narrativa, como ambos explicados acima ou ainda como a cena da “perseguição”.

Foto: Searchlight Pictures/Divulgação

O humor ácido e irônico presente é cuidadosamente dosado pelos roteiristas, que constroem uma obra muito convidativa, intensa e com uma catarse em seu final. Vale muito a pena, passou batido nos cinemas brasileiros, mas não perca a oportunidade dessa experiência gastronômica visual repleta de camadas e metáforas que a gente tanto busca. Aliás, assim como o próprio filme, nada, ABSOLUTAMENTE nada supera um hambúrguer com batata frita.

The Menu, 2022.
Veredito: 4/5
Onde assistir: Star Plus
Duração: 1h 46m
Direção: Mark Mylod
Agregador no Rotten Tomatoes: 88%
Trailer Youtube

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