Meu Deus, eu não consigo… Não. É impossível. É transcendental. É viagem. O sonho meu. Será que pela graça dos astros um dia eu consigo me… Desbauruzar? E por reza? Desbauruzar, digo, tirar Bauru de mim. Não por ódio, mas por amor à lembrança. Colocar Bauru para fora: não como mijo ou sangue ou muco (meus), mas expurgo, exorcismo, queda livre — a expectoração. Meu “fim”, para o fim da minha montagem humana pela cidade. Despedaçado, deformado. E, em sequência, sim, o peito novamente aberto como janela, do tal defenestrar. Vou me fazer entender… reconto. Quero dar lugar a outra Bauru em mim. Aquela que não vivi, só ouvi falar. A Bauru de meu pai. Ela tomar-me conta, fazer de conta. Fazer estórias. Para ela, para dar encaixe sem graxa, quero esquecer tudo o que vivi, o que vi e ouvi nesta zona do lembrar, o que fui, perder o que conheço e ganhar estes tais de meu munícipe pai, reunir os restos, lamber os beiços, rever os inéditos. Chamar a tábula rasa, a primeira página, o joão medindo o ninho. O voo. O ovo. Voltar a vê-lo. Recosturar com velho novelo, colecionar aquelas agulhas. As musas. As minhas receitas, minhas manhas, minhas bulas — esquecê-las. Não sê-las, não sabê-las, adormecê-las. Eu… Tomei gosto. Eu gosto. Gosto da Bauru de meu pai. Que meu pai sempre contou… e eu acabei me apaixonando, apaixonando, apaixonando, meu pai chorando, eu olhando, eu e pai lembrando, meu pai contando, eu sonhando, sonho se transformando, eu a qualquer mando, meu pai aos prantos, eu e pai tentados pelo canto, eu e pai e tanto, tanto, tanto. O tempo. Nós, aproximando. Cresci com meu pai escrevendo a Bauru que ele inventou. Fábulas. Falando, falando. Eu ouvindo. Meu pai — o inventor. Sem ninguém para dizer: é verdade, é mentira. Seu testemunho, sem testemunhas. Estórias perniciosas sem oitivas. Oitentas, os anos. Ontem sim! Sua juventude. Bauru, segundo ele. Eu me interesso tanto por essa cidade submersa na memória do meu pai. E assim a vida parou… Ou foi culpa do meu pai — este velho sonhador — que plantou a sua Bauru na minha cabeça ingênua e fértil, cujos frutos têm o gosto que nunca provei? E nunca provarei. É e era. Etcétera. Resta-me inventar sabores… Embauruficar. Presente, pai sábio, futuro. O que este velho viu — o que ele inventou?! Existiu? Não fale assim de seu pai, homem vivido. Homem passado. Você acha que mentiu? Penso na vida de meu pai. Como escreveu a cidade, a Bauru de todos os textos. Bauru como foi, comovida. Que fruto verdadeiro ele mordeu, de que pé? De que pé nasce uma letra? Sei que plantou uma árvore na frente da sua escola primária, quando criança. A minha irmã — seu primeiro fruto — nossas raízes. Como uma criança descobre a linguagem? Sobe na árvore? Como uma criança como meu pai, de repente, entende e sente: p, o, e, s, i, a? E desta, inseparável, comunica e leciona? Vida. Aulas… São tantas perguntas sem respostas. Mas sei caminhos, desobediências, conheço o curso do poeta, seus meandros, suas frestas. Suas festas. Sei que às tardes de sábado, menino, descia para a Batista de Carvalho, e comia um delicioso cachorro-quente. A que gosto? (…) Diziam que ele voltava americanizado. Sei que foi, por tempo e passatempo, o herói Mascarado, das histórias em quadrinhos, e também o Capitão Nasal. Sei que morou perto do Noite Ilustrada e fez de seu quintal um mundo com Pedrinho. Que desaguou em Santos — justo ele, de todos os santos — e escreveu o mar… Filho, aqui era o Cine Bela Vista e eu era o Tarzan. Lançava balas do mezanino, depois do frango-e-macalão do domingo. Sei que dançou muito, até as tediosas músicas lentas. Que frequentou lanchonetes Lelos, Baiano, Frutal. Que fez Letras sem fazer nenhuma delas. Que fundou uma torcida de futebol. Que teve uma boate Virô Brasil, uma pista que eu mesmo nunca dancei. Um programa de rádio. Uma palestra. Um amor. Um livro. E fez tantas amizades, tantos alunos, tantos encontros. A arte do encontro… Tanta vida para a página. Para a Bauru de meu pai. Realmente existiu? O que existe é ele. Quando ele me conta, na espreita, tomo gosto. Fico completo. Cresci assim, Sinuhe como ele. Eu gosto — como gosto de viver. São essas memórias de pai. Apaixonantes, o pai de antes, memórias de pai amante, memórias de alguém com o mesmo nome. O nome: um espelho. O artista que mais copio, ouço e assisto. E é tão bom conviver. Ser todo ouvidos. Por onde andará a Bauru dele? Sem pressa, vida é festa. Um dia, toparei com ela, a Bauru de meu pai. Enquanto isso… Embaurufico. Embauruficado, vivo. Pelo bem de meus pais, pelo bem dos sãos, de meu irmão, de meus futuros filhos.

Confira mais textos do Sinuhe LP.

Compartilhe!
  • Furiosa: A Mad Max Saga

    O primeiro Mad Max é bem antigo, filme australiano direto de 1979 o longa dirigido pelo es…
  • X-Men ’97

    Com elementos de nostalgia, a série animada passa por um processo de redescobrir o real si…
  • Planeta dos Macacos: O Reinado

    Novo filme renova a franquia e deixa um fôlego para o futuro Um filme despretensioso de 19…
Carregar mais em Colunistas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também

Furiosa: A Mad Max Saga

O primeiro Mad Max é bem antigo, filme australiano direto de 1979 o longa dirigido pelo es…