No cotidiano de uma comunidade, é comum encontrar pessoas “especialistas” em medicina, sempre prontas para diagnosticar uma gripe, cefaleia, dor de estômago, cólica de rim e, com as melhores das intenções, aviam receitas de chás, um comprimidinho e outros tipos de remédios que entendem ser a solução para o caso. Mas, não se pode deixar de esclarecer que esta é uma prerrogativa do profissional da medicina.

Andando pelas ruas de Bauru, encontro com certa regularidade, pessoas amigas ou conhecidas que, sabendo da minha relação com a mobilidade urbana e trânsito, passam a reclamar ou mesmo diagnosticar e sugerir ações que, certamente, em suas próprias visões, trariam soluções para o já conturbado trânsito bauruense.

A mobilidade urbana e mesmo o sistema de trânsito são áreas do conhecimento da engenharia que, tal como a medicina, requerem grande conhecimento, especialização e experiência para a sua correta análise, diagnóstico e proposição de ações. Mas, os “especialistas” se apresentam recorrentemente, sejam eles comerciantes, advogados, estudantes, professores, etc. Nesta visão, a solução está sempre em alterações no sistema (colocar semáforo, lombada, mudar o sentido da via etc.) ou nas outras pessoas; elas é que devem mudar, agir ou se comportar de maneira distinta.

A mobilidade, de maneira geral e, de maneira particular, a urbana, além dos conhecimentos de engenharia, envolvem uma série de outras áreas de conhecimento, tais como psicologia, pedagogia, sociologia, geografia, direito, urbanismo, dentre outras. O elemento chave deste sistema é o ser humano e com ele vêm todas as suas intercorrências. Por isso, também, que a mobilidade urbana e o trânsito apresentam um grau elevado de complexidade, exigindo soluções holísticas e consistentes, para que se promova um “up grade” no direito constitucional de ir e vir, com enfoque precípuo na sustentabilidade.

Não diria a solução, mas a melhoria em grande parte dos problemas de trânsito e mobilidade urbana pode estar mais próxima do que se imagina. Ela pode estar em nós mesmos, nas pessoas que fazem parte destes sistemas. Extrapolando o enfoque sobre o trânsito, mas tendo como objetivo entender a sua gênese e seus problemas, os seus usuários e demais atores dos sistemas precisam rever suas posições, começando a mudar os atuais paradigmas, onde a solução está inexoravelmente no outro.

A filosofia Visão Zero, por exemplo, desenvolvida e implantada com grande sucesso na Suécia (e difundida pelo mundo), na década de 1990, possui o princípio ético de que não se pode aceitar que pessoas morram ou fiquem gravemente feridas no sistema de trânsito. Apregoa que as responsabilidades sobre ele devem ser compartilhadas entre projetistas, operadores e mantenedores das facilidades e vias, legisladores, políticos, gestores e usuários (pedestres, ciclistas, motociclistas, condutores, passageiros). Uma eficiente sinergia entre todos os envolvidos é premente para o êxito da mobilidade sustentável.

O sistema de trânsito, que possibilita a mobilidade das pessoas, é uma das mais proeminentes parcelas do sistema urbano que permite ao cidadão participar da reprodução social em uma cidade. Ele possibilita que os mais variados grupos, segmentos e pessoas de uma comunidade se encontrem e se relacionem.

Não é por outro motivo que o comportamento dos usuários envolvidos no trânsito é extremamente significativo no adequado funcionamento deste sistema. Quanto mais partícipe se torna do sistema de trânsito, mais se requer que o cidadão seja corresponsável pela qualidade do ambiente urbano, particularmente dos espaços públicos. Não basta a pessoa ficar reclamando do prefeito, dizendo que as ruas e calçadas estão esburacadas, sujas, mal cuidadas, o trânsito é ruim, que o gestor do trânsito não faz isto ou aquilo, ainda que isso possa ser verdadeiro. O cidadão tem o dever cívico de se comprometer em realizar a cota parte que lhe compete neste sistema, dele esperando uma ação pessoal com consciência elevada.

Quando se analisa a precariedade do sistema de trânsito é de bom alvitre que os usuários e atores modifiquem o próprio comportamento. É extremamente comum ver no centro da cidade, próximo aos grandes polos geradores de viagens, por exemplo, motoristas que estacionam em locais proibidos ou indevidamente em vaga de idosos e pessoas com deficiência, param sobre a faixa de pedestres, cruzam o sinal vermelho, excedem a velocidade, buzinam para o pedestre, etc. Não adianta falar: “Como é ruim o trânsito de Bauru! Os bauruenses dirigem muito mal! Eles não dão seta”. Será que eu faço o contrário?

Entende-se que a mudança de comportamento seja uma ação fundamental para o processo de mitigação de acidentes e suas externalidades negativas. E, para cada pessoa, é necessário o reconhecimento de seus maus hábitos, fazendo uma severa autocrítica e superando as próprias resistências internas. Urge que cada cidadão questione recorrentemente suas ações no trânsito (e na sociedade), analisando o seu desempenho, promovendo as devidas correções de comportamento, promovendo a melhoria no bem comum.

Vale sempre lembrar a regra de ouro, como recomenda a grande humanista do século XX e fundadora do Movimento dos Focolares, Chiara Lubich: “não fazer ao outro aquilo que não gostaria que fizessem a si”. Uma disposição de respeitar ao próximo, praticada no dia a dia, poderia proporcionar uma melhoria substancial na convivência no trânsito e qualidade de vida. Que tal se a gente começasse uma corrente do bem, aplicando estes conceitos de imediato? Veremos que os resultados aparecerão de maneira inefável.

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