Você já viu alguém tragando um dispositivo semelhante a um pendrive ou a uma caneta? Ou então, exalando uma fumaça branca e sem cheiro em ambientes fechados? Bom, isso significa que você, provavelmente, se deparou com um cigarro eletrônico, a mais nova febre entre os jovens. 

Lançado no mercado com a principal proposta de ser menos prejudicial que sua versão tradicional, o cigarro eletrônico está levantando diversas discussões.

Nos holofotes do mundo 

O dispositivo ganhou a atenção de todo o mundo devido à grande e rápida adesão que teve entre os jovens. Isso se deve ao fato de ser versátil, com diversas opções de sabor e também ter um design tecnológico, diferentemente do cigarro comum. 

No entanto, por sua popularização ser muito recente e haver uma falta de padronização entre os fabricantes, seus efeitos sobre o corpo humano ainda não são totalmente conhecidos pelos especialistas. Inclusive, essa dúvida está gerando uma onda de pânico, especialmente nos Estados Unidos. 

No último mês, o país registrou seis mortes e 450 casos de hospitalizações relacionadas ao uso de cigarros eletrônicos. Os acontecimentos estão ocasionando a proibição do dispositivo em diversos estados norte-americanos, correndo o risco de ser criminalizado em todo o país.

Um olhar técnico

Diferentemente dos cigarros tradicionais, que funcionam à base da combustão do tabaco, produzindo milhares de substâncias tóxicas, os eletrônicos operam por vaporização. Assim, por meio de uma bateria, os dispositivos evaporam uma mistura líquida, geralmente feita com álcool, água, nicotina, glicerina, propilenoglicol e, opcionalmente, aromatizantes.

Teoricamente, por ter menos compostos químicos, ele seria melhor que o cigarro tradicional, porém isso não é uma certeza. Inclusive, a fisioterapeuta Alessandra Ferrari Domingues afirma que diversas substâncias presentes nos cigarros eletrônicos também são prejudiciais. 

Foto: Reprodução/sarahjohnson1

A concentração de nicotina nesses dispositivos pode ser até maior que nos cigarros convencionais. E, além das complicações causadas pela nicotina, essas substâncias que são acrescentadas podem levar a uma irritação nas vias aéreas, inflamação dos pulmões e alterações cardiovasculares”, reforça a especialista. 

Contudo, ainda não há consenso entre a comunidade científica sobre qual composto específico estaria causando as hospitalizações. Os resultados inconclusivos também apareceram em uma pesquisa brasileira, realizada em 2016. 

O estudo, fruto de uma parceria entre o Ministério da Saúde – Instituto Nacional do Câncer (INCA), a Organização Panamericana da Saúde (OPAS) e a Anvisa, concluiu que faltam evidências científicas que comprovem a segurança desses produtos. 

Além disso, grande parte dessas incertezas podem ser consideradas como um efeito da falta de regularização entre os fabricantes. Isso resulta em uma variação, de marca para marca, na concentração dos compostos presentes no líquido de cada vaporizador. 

Dessa forma, é mais difícil identificar se todos os vapes – como são popularmente conhecidos os cigarros eletrônicos – devem ser categorizados como nocivos à saúde. 

É trocar seis por meia dúzia?

Apesar da proposta inicial, como uma ferramenta que auxiliasse no abandono ao vício em cigarros comuns, os estudos sobre os vapes ainda têm resultados controversos. 

Lançado no mercado com a principal proposta de ser menos prejudicial que sua versão tradicional, os cigarros eletrônicos estão causando muitas discussões. 
Foto: Reprodução/Vaping 360

Em fevereiro deste ano, um estudo divulgado pelo periódico científico inglês New England Journal of Medicine, concluiu que os cigarros eletrônicos foram a melhor alternativa dentre as opções para abandonar o tabagismo. 

No entanto, em entrevista ao Jornal da USP no Ar, a médica e coordenadora do Programa de Tratamento do Tabagismo do InCor, Jacqueline Scholz Issa, desmistifica o uso de cigarros eletrônicos para essa finalidade. Ao veículo, ela explicou que o uso desses novos aparelhos não pode ser considerado uma forma de tratamento.

CP*, de 32 anos, conta que começou a utilizar o cigarro eletrônico há mais de sete anos. Ele afirma que o dispositivo foi primordial para que conseguissem abandonar o vício de oito anos no cigarro tradicional.

Sobre as motivações que o levaram a fazer a substituição, ele comenta: “O cigarro convencional tem 4.999 substâncias tóxicas. No eletrônico existe uma substância tóxica, que é a nicotina (e alguns nem tem)”. Ele ainda reconhece que o dispositivo pode até fazer mal faz, porém menos que o convencional.

Além disso, os vapes também podem ser utilizados com outro intuito: redução de ansiedade. Ivan Costa* utiliza o dispositivo há cerca de oito meses e participa de grupos de usuários no Facebook, onde pontua que existem diversos relatos nesse sentido. 

Ivan* conta que não migrou para os cigarros eletrônicos como uma alternativa a um vício prévio. Seu caso é justamente o contrário: “Ele possibilita que eu vapore sem causar qualquer tipo de dependência, porque utilizo líquidos sem nicotina”, afirma.

Questão de saúde pública

O Brasil foi considerado uma referência no combate ao tabaco pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, desde 2009, a comercialização, a importação e a propaganda  de cigarros eletrônicos são proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Posteriormente, a discussão voltou à tona e, em julho de 2017, a Anvisa recebeu um documento de apoio da Associação Médica Brasileira (AMB) à proibição dos Dispositivos Eletrônicos no Brasil. 

Nele, os especialistas abordam o quão nocivo pode ser o uso do cigarro eletrônico para a saúde do usuário. Além disso, a AMB também destaca o poder do produto para atrair usuários jovens, estimulando o hábito de fumar. 

“Isso se torna ainda mais perigoso pois doenças que antes acometiam pessoas que fumavam durante anos estão aparecendo em jovens com menor tempo de exposição”, alerta a fisioterapeuta Alessandra Ferrari.

Assim, é importante ficar atento a todas as questões que envolvem o dispositivo e analisar até que ponto vale a pena o seu uso. E, bom, aguardar novos estudos que sejam mais conclusivos e determinem, de fato, se os cigarros eletrônicos são ou não uma alternativa. 

*Os entrevistados preferiram manter suas identidades em anonimato 

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