O comércio de Bauru, desde os seus primeiros anos de vida, é conhecido e respeitado como sendo pujante e responsável por grande parte da movimentação econômica da cidade, bem como de toda a região centro-oeste paulista. A rua Batista de Carvalho foi a via mais importante desta atividade que, depois, foi espalhada por uma extensa área da cidade.

Dentre os empreendimentos do início do século XX, na rua Batista de Carvalho 4-9, esquina com a rua Virgílio Malta, se destacava uma grande loja, a Casa Ribeiro, que, como os grandes armazéns da época, vendia secos e molhados, ferramentas, combustível etc. A loja foi fundada por José Ribeiro da Silva, um imigrante português, nascido em Braga. Chegou ao Brasil, ainda garoto, na década de 1890, e logo foi trabalhar em uma loja da quadra 1 da rua Batista. Algum tempo depois, adquiriu a loja de seu patrão e começou o próprio negócio. O lusitano era muito inteligente e culto, e tinha como hobby ler jornal, livros, além de tocar flauta.

Casa Ribeiro em Bauru (foto cedidas pelo colunista)

Durante a sua gestão como presidente (1922-1930), foi construído e inaugurado o Hospital da Beneficência Portuguesa de Bauru. Devido ao seu grande amor pela pátria mãe, Ribeiro foi nomeado, em 1918, “Vice Consul da Nação Portuguesa de Bauru”, por Carlos Sampayo Garrido, então Consul de Portugal em São Paulo.

Alguns anos depois, Ribeiro colocou o filho primogênito, Hélcio Pupo Ribeiro, como seu sócio, agora já no prédio da quadra 4, onde permaneceu até a década de 1950, tendo sofrido todos os impactos da crise de 1929, a Grande Depressão.

Hélcio, além de gostar do comércio, amava a música e a arte. Com o encerramento das atividades do armazém, Hélcio deu continuidade ao comércio, porém manteve somente como “Casa Ribeiro – A Discoteca de Bauru”, em 1958. Foi um ícone do ramo de discos e acessórios para vitrolas. Anos depois a Discoteca foi vendida para a família Faria, que a geriu até o seu encerramento, na década de 1980, após enfrentar uma mudança radical de hábitos musicais na sociedade. Nesta época a loja estava situada à rua Virgílio Malta 4-57.

Discoteca Bauru (foto cedidas pelo colunista)

A Discoteca ia muito além de uma loja de discos e depois CDs. Era um ponto de encontro entre todos os amantes da boa música e representantes das gravadoras Chantecler, Columbia, Copacabana, Odeon etc. Em 1943, Hélcio fundava o Clube Amigos da Boa Música (CABM), que oferecia audições, com direito a uma verdadeira aula sobre os compositores e as obras, em sua casa na praça Rodrigues de Abreu, posteriormente na rua Gerson França 18-82. O repertório era eclético, variando desde óperas à boa MPB orquestrada. Com o seu grande acervo, além de seus maravilhosos equipamentos de som, Hélcio garantia um conteúdo variado e de grande qualidade aos membros do Clube.

Encontro Amigos Discoteca (foto cedidas pelo colunista)

Hélcio recebia em sua loja muitos amigos e apreciadores de música clássica e erudita. Eram verdadeiras reuniões onde essas pessoas podiam acrescentar e adquirir conhecimento sobre os grandes clássicos da música clássica e erudita. Obras de grandes compositores, tais como Beethoven, Verdi, Vivaldi, Mozart, Chopin, Tchaikovsky, Schubert, Wagner, Brahms, Debussy, Händel, Stravinsky, Mahler, Haydn, Liszt, Villa Lobos, dentre outros podiam ser adquiridas.

Com seu estreito relacionamento com os representantes das gravadoras, Hélcio assegurava aos seus clientes acesso aos principais lançamentos feitos simultaneamente com as principais lojas do Brasil. Podiam ser adquiridos compactos simples e duplos, LPs (long play) e, mais recentemente, cassetes e CDs.

A Discoteca também inovou, quando em uma reforma nas suas instalações, foram construídas quatro cabines com isolamento acústico para que os clientes pudessem degustar os produtos da loja, hábito que acabou se espalhando em várias lojas similares do país.

Hélcio tinha grandes conhecimentos sobre música e artes. Formado como Perito Contador, foi considerado autodidata pelo Conselho Estadual de Educação. Fez curso de especialização na FAAP-SP, tendo descoberto uma paixão meio que tardia, a docência. No final da década de 1960 e início dos anos 1970 lecionou na FAFIL (atual Unisagrado) e Escola de Belas Artes, tendo em seguida ingressado na FEB (atual UNESP), onde se aposentou. Lá, amava ministrar aulas de História da Arte, quase sempre musicadas, o que provocava grande interesse por parte dos alunos. Nos últimos anos de sua vida se dedicou somente à família e ao CABM. Faleceu em 2002, tendo o CABM continuidade em suas atividades pela abnegação da empresária Cláudia Siscar.

Hélcio foi também membro da Academia Bauruense de Letras, tendo escrito vários livros, além de uma série de artigos para diversos jornais de Bauru e São Paulo. Ocupou vários cargos na diretoria da Beneficência Portuguesa. A história da música e da arte de Bauru se confunde com Hélcio Pupo Ribeiro.

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