Às segundas-feiras, no colégio, tinha aula de português. E alguém sempre gritava: aula de crase, outra vez? Mas a professora não se chateava. Para começar a ensinar, apagava a lousa cheia de tabuada. Porque antes dela chegar, vinha o professor de geometria.

E uma vez ele comentou, durante a lição, um segredo que ninguém sabia. Peçam para a professora contar a história do leão, disse o professor medindo o lado de um isósceles com a mão. Foi o professor dizer e a sala ficou em silêncio absoluto. Nada se ouvia a não ser alguém soprando uma bolinha de papel com canudo. Todo mundo ficou pensando na tal história curiosa. E assim que a professora chegou, encontrou a sala em polvorosa. Muitos em pé, poucos sentados, estava uma algazarra completa. A profa se aproximou, puxou a cadeira, sentou e deixou a apostila aberta.

Passaram alguns minutos e a professora continuava quieta. Ela tinha esperança que a sala percebesse a sua presença e terminasse a festa. Mas nada parava aquela turma do barulho. Uns jogavam cartas, outros comiam um lanchinho, e no interruptor: claro, escuro, claro, escuro. A profa ficou temerosa que a diretora notasse aquele escarcéu. Ela tinha que bolar algum plano para acabar de vez com a torre de Babel. Então se levantou e imaginando uma escada, subiu na cadeira e depois na mesa. Ficou tão alta que enxergava até o último aluno, imponência de grande realeza. Mesmo com a atitude extravagante, ninguém deu bola. Estavam mais interessados jogando stop: alguém sabe “minha sogra é” com E de escola? A profa estava desistindo quando gritou em alto e bom som: eu vou contar! E toda a sala se remexeu igual uma centopéia escalando um pomar.

A sala gritava conta, conta, conta!, mas a professora se fazia de sonsa. E respondeu para a turma: eu só vou contar ao terminar o exercício da oração subordinada. E todo o mundo virou a cadeira de costas, a classe emburrada. Só restou uma menina que sentava na frente e usava um all star vermelho. Ela levantou a mão e perguntou mexendo no cabelo. Profa, por mais que a gente insista… já já a minha mãe me busca para ir ao dentista. Você poderia contar logo ou ao menos dar uma pista?

A turma queria mesmo conhecer a história do leão de Bauru. Da avenida, a estátua de um leão que já foi prateado, dourado, verde e azul. A profa abandonou o giz, limpou as mãos e desistiu por um instante do magistério. Já era hora de acabar de uma vez por todas com esse mistério. Ela ligou o projetor e mostrou aos alunos quem era este leão afinal. Todos se surpreenderam porque o leão, na verdade, era uma estátua (que ficava no canteiro central).

Tudo isso é verde como chicória, não existe história. Assim como vocês, que esperaram tanto para eu contar uma coisa que não existe, esse leão também espera pelo dia da fartura, o que o deixa muito triste. A verdade é que não existe história nenhuma sobre esse leãozinho. O que existe é a sua eterna espera por um lanchinho. Reparem, o leão está parado e com a boca aberta desde que nasceu. Eu duvido se alguma vez na vida esse leão comeu. Ele parece estar sempre com fome, com os dentes à mostra, pronto para dar uma mordida. Mas o que no máximo se aproxima dele, é uma frota de carros a percorrer a avenida. Vocês esperaram a história. E tão próxima estou eu para revelar esta fantasia. O leão espera a comida. E tão próximas estão várias lanchonetes da sua barriga. Parece que esse leão protagoniza um castigo. Viver a vida inteira com fome e ter sempre comida em frente ao seu umbigo.

A sala ficou muda por um instante e meio. Até que alguém gritou: profa, posso ir ao banheiro?

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