Cara MMM.,

Espero que você tenha conseguido alcançar este envelope sem grandes problemas. Tenho me poupado das interações sociais. Estou camuflada. Conforme conversamos no início do ano passado, a torto e direito trabalho diariamente, focada em reunir em um primeiro documento as informações que pediu. Devo reforçar que a sua solicitação não é uma tarefa fácil de ser realizada. Nada trivial. Porém, já temos alguns resultados. As fotos comprobatórias estão anexas a este envelope. Cuide bem delas. Não tenho cópias.

Comecei a pesquisa de campo a partir das suas dicas para os respectivos bairros. Você me surpreendeu. As surpresas foram vastas. Sim, ainda há muito o que pesquisar, fotografar, entender, perguntar… Que este documento seja apenas o começo semente para o que será o final árvore. Abaixo, como um índice, resumos da primeira leva coletada. Uma versão inicial e parcial. Para a nossa próxima comunicação, deixarei o novo envelope no mesmo local onde você encontrou este. Por favor, escreva-me sobre as suas primeiras impressões após a leitura. Serão de grande valor.

1. Lobisomagens (Jardim Marambá, fotos 1 e 2)

Estória dada como esquecida e evitada pelos moradores. Polêmica dos anos oitentas vivida em um antigo colégio de bairro. Crianças da primeira série do fundamental, à altura dos seus seis ou sete anos, voltaram para a casa dizendo aos pais que a Tia Rô era uma lobisomem. Ação motivada porque Rô não quis posar com a sua turma para a fotografia de formatura. Fato estranhado por todo o colégio. O pulo do gato para os alunos associarem a recusa à lobisomagem foi o comentário de uma menina que sentava na frente, cujo nome uns dizem Berta, outros Bela, contando que apenas lobisomens fogem dos flashes das fotografias. Preocupados com a veemência do discurso dos filhos que falavam sem piscar, os pais foram até a escola na manhã seguinte. Todos ocuparam a sala da diretora, menos os pais de Berta que tinha desaparecido. Foi encontrada apenas no outro dia, escondida nos fundos do colégio pelo medo da suposta lobisomem. Na foto 1, a turma do fundamental sem a Tia Rô (recorte de jornal). Na foto 2, uma foto deteriorada do registro de Rô no colégio municipal.

2. Gabriel Teodoro (Mary Dota, foto 3)

É consenso no bairro, mas quem faz o testemunho é a sobrinha, na porta da sua casa, sentada em um toco. Seu tio Gabriel Teodoro foi um operário em uma fábrica de calçados na região de Bauru. Seu sonho era ser modelista. Conta que os amigos da época da fábrica frequentemente notavam a sua ausência, o que não se justificava por nenhum motivo e ninguém o encontrava. Dali algumas horas, Gabriel Teodoro voltava a aparecer, quase ao final do expediente, com todo o serviço acumulado. Foi em terça-feira cujos cactos parafusos florescem que a sobrinha presenciou o seu tio discutindo na calçada com um homem não identificado. Este homem apontou uma arma a ele, e como em um truque de mágico, o tio sumiu. Transformou-se fora de sua casa em figura de toco. Um toco de madeira em momentos de aflição ou perigo.

3. Homenzinhos (Bela Vista, fotos 5 e 6)

Toda a estória por trás deste boato está concentrada na família Rosa. Conta a filha mais nova que em uma passagem de ano, não conseguiu ficar acordada até a virada da meia noite. Isso virou tradição, acordava apenas no dia seguinte, o dia 1. Anos se passaram quando um dia a avó a alertou: você deveria ficar acordada, quem dorme e não vê o ano nascer, sonha com o estranho. Daquele 31 dormindo em diante, a filha mais nova passou a sonhar com pequenos homenzinhos, vestidos de terno, andando enfileirados como centopeia na sua rua. O jogo virou quando, meses depois, passou a sentir a presença deles em momentos do dia, como se fizessem cócegas ao andar pelos seus ombros, de um lado para o outro. Nas fotos, pequenas pegadas fotografadas no jardim da família, como marcas de sapatos bico fino dos homenzinhos, minúsculos perto de uma moeda de cinco centavos.

4. Megafungo (Vila Falcão, foto 4)

Com inúmeros riscos de desabar, sobrevive de pé na vila uma casa abandonada dos anos setentas, palco de muito mistério e boas estórias, rodeada entre terrenos baldios em uma rua sem saída. A casa realmente existe e pude visitá-la na última semana da pesquisa. Entre tudo o que ouvi, o que realmente existe são os fungos. O cheiro é forte. Toda a casa está dominada. Paredes, portas, pisos. Cômodos não encontram a luz do sol há algum tempo, janelas foram tomadas por grossas camadas verdes. Fui surpreendida quando finalmente passei a ouvir ruídos de palavras dentro da casa, completamente inabitada. É uma sensação esquisita. À primeira vista, imagina-se estar alucinando, fungos não falam. Mas conhecendo o boato, levei um gravador. Ao primeiro sussurro, apertei o rec – gravando! Tento descrever a voz que ouvi, fico confusa. É doce como o balbucio de um bebê, mas pedregulhosa como o resmungo de um idoso. As palavras soavam pausadamente, com um intervalo demarcado, sem pressa. Entre as que ouvi e pude registrar: sargon, assarhaddon, assurbanipal, teglattphalasar, salmanassar, nabonid, nabopalassar, nabucodonosor, belsazar, sanekherib.

5. Peste bubônica (Vila Cardia)

Outra estória de família. Boas línguas contam que ao final da rua da padaria, morava uma mãe e sua filha pequena. Ambas inseparáveis, vendiam salgados como coxinhas, bolinhas de queijo e risoles, sempre guardados em suas cestas revestidas com toalhas brancas. A mãe tinha uma mania peculiar: para qualquer enrosco, frustração ou bate-boca, a mãe xingava “peste bubônica!”, como um bordão para a ocasião. A vila reconhecia a mãe pela interjeição. Em uma quarta-feira de cinzas, mãe e filha tiveram uma visita inesperada. Alguém bateu à porta. Chamou a primeira vez, ninguém atendeu. A segunda, idem. Na terceira, a filha que colava figurinhas em um álbum colecionável, foi atender. A sua mãe está? Perguntou a moça misteriosa. Da parte de quem? Respondeu a filha. Eu gostaria de ver a sua mãe, retrucou. A filha chamou a mãe que estava fritando os salgados. Pois não? A mãe surpreendeu-se com a mulher. A senhora vende salgados, não é? Faz tempo que eu quero te conhecer pessoalmente. Eu demorei mas finalmente estou aqui. Quem é você? Disse a mãe. Eu sou a peste bubônica. A mãe rapidamente fechou a porta. Mudaram-se dali na semana seguinte.

Confira mais textos do colunista: socialbauru.com.br/author/sinuhelp.

Compartilhe!
Carregar mais em Colunistas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também

Beatles em 4 filmes

Anunciado nesta semana, em parceria com a Sony e a Apple Corps (empresa responsável por to…