De volta para o futuro é sem dúvidas, com o perdão do trocadilho, um clássico atemporal. Quantas tardes quentes dos anos 90 não fiquei sentado no tapete da sala com os olhos esbugalhados (ainda mais do que de costume) enquanto o ‘Doc’ Emmet Brown e seu jovem amigo Marty McFly enfrentavam os emaranhados do fluxo do espaço-tempo, em uma época que Tony Stark ainda era apenas um personagem B (de bêbado) dos quadrinhos da Marvel. As idas e voltas do roteiro, as viradas, e o final triunfante onde o mocinho consegue voltar para o futuro e ainda, de quebra, melhorar a sua própria vida e as dos seus, com o extra de condenar o bully Biff Tannen a comer esterco, objetiva e subjetivamente. O filme e suas continuações são uma das melhores coisas já produzidas para a audiência infanto-juvenil, e influenciaram toda uma geração com uma mistura bem dosada de ficção, ação, aventura, comédia e até uma pitadinha assim de romance.

Esses dias estava reassistindo o primeiro filme da franquia, onde Marty volta para ao passado e sua interferência faz com que sua mãe se interesse romanticamente por ele (Freud, corre aqui), de forma que ele deve se esforçar para fazer com que ela e seu pai se re-apaixonem. E tudo isso antes do momento preciso de voltar pra casa usando um raio como fonte de energia para o seu DeLorean. Revendo a cena onde o protagonista viajante do tempo consegue que o sem graça e mal-ajambrado George McFly finalmente pesque o coração da assanhadíssima moçoila, um detalhe que sempre passou ileso chamou minha atenção depois de 30 anos: O ponto de virada da história que melhora a vida de todos, aumenta a autoestima de George, conquista sua futura esposa e ainda, de quebra, derrota moralmente o antagonista Biff é, quem diria, um soco. Uma porrada. Um bem dado no meio dos olhos. Uma senhora de uma bifa (tô impossível nos trocadinhos hoje). Ou, como o meu eu de 8 anos de idade provavelmente diria “um murrão bem no meio da cara”.

Interessante, isso. George é um cara inteligente, criativo, que escreve ótimas histórias de ficção. É bonito, mas não tem confiança suficiente para ‘chegar’ nas novinhas, e por isso, perderia a oportunidade de conhecer até a própria esposa se não tivesse sido atropelado enquanto espiava moças de soutien pela janela (os nudes vazados dos anos 50). É educado, simpático, aparentemente responsável, mas só consegue se sentir seguro, confiante e pronto para conquistar depois que vence, fisicamente, o seu opositor. O que grava na cabeça de uma criança ou adolescente a imagem de um homem que, mesmo repleto de qualidades, depende de uma agressão física para ter autoconfiança? Se você respondeu ‘violência é o caminho’ ou ‘homens precisam ser fortes e dominantes para vencer na vida’, você entendeu a ideia. Se você respondeu outra coisa você não tá prestando atenção, hein? Vamos focar aí! Vem comigo!
Lembro do Indiana Jones. Grande conhecedor de culturas, explorador, destemido. Poderia vencer os desafios com inteligência e perspicácia (exceto quando o problema envolvesse víboras e assemelhadas, o que é perfeitamente compreensível) e, apesar disso tudo, uma das cenas mais marcantes de seu primeiro filme é quando ele atira no peito de um grandalhão em um desafio de espadas. E a questão aqui não é nem o que leva ele a sacar o revolver, afinal, eu no lugar dele faria o mesmo mas, além dessa, há em seus filmes um sem número de cenas onde o protagonista apela para o muque. Inclusive há uma porradaria generalizada no ato final da horrível prequela Templo da perdição onde até o seu sidekick cobra a treta do Himalaia do pequeno Marajá, em uma porradaria infantil de dar inveja em qualquer monitora de Buffet. Eram tempos mais simples.

O ponto aqui é: Por que então essas cenas? Dr. Jones tem um Doutorado, é professor emérito de uma grande universidade e, se ainda não bastasse, é bonito e bom de lábia. Porque diabos um cara com tantas qualidades, precisa protagonizar cenas violentas? E essa é uma violência diferente daquela de lanças sendo cuspidas pela parede ou pelo risco iminente de virar pasta de arqueólogo ao ser esmagado por uma Jabulani gigante de pedra. É uma violência que existe, pelo menos nesse contexto do filme, para posicionar o protagonista como um ‘homem forte’. Destemido. Dominante.

Um cara violento. Macho.

A figura do machão violento permeia com certeza a memória de todos que cresceram nos anos 90. Silvester Stallone estampava seu personagem Rambo em lancheiras e congas (aparentemente, nos anos 80 e 90 um cara sem camisa com uma metralhadora em artigos infantis era OK; não é que o mundo hoje seja chato, antes é que éramos psicóticos) e Arnold Schuas… Shuawaszz… Bom, o Exterminador do Futuro era personagem satirizado nas revistinhas da turma da Mônica, com metralhadora e tudo. Van Damme enfiava o pé na fuça de todas as minorias asiáticas e ainda encontrava tempo na agenda pra encochar tailandesas em bares decadente e ex-melindrosas no palco do saudoso Domingo Legal (outro expoente máximo do delírio coletivo que foi os anos 90). E não faço mea culpa, porque se tem uma coisa que me diverte é um bom filme de ação do tipo luta/tiro/explosão claramente falsa adicionada na pós produção. Em um filme como Cobra, Rocky ou o próprio Dragão Branco não há espaço para conversa, porque o mote do filme é esse mesmo: Pé na porta e soco na cara. Não queríamos ver o Governator ou o Stallone de conversa afiada (exceto seu excelente discurso em Rocky Balboa, mas infelizmente isso vai ter que ficar para outro dia), o que nós queríamos mesmo era aquela mistura de sangue e testosterona que só se vê igual em laboratório de análise do COI. É meio bobo? Pode ser. É bom? É excelente!

Mas esses eram filmes sobre violência. Sobre personagens violentos. Sobre histórias violentas. Lutadores, soldados, policiais… Pessoas que viviam a violência como modo de vida, no seu dia a dia. O Vietnã aconteceu, o crime acontece e essas pessoas lidavam com isso. O que me incomoda, aliás, me incomodou recentemente, é como a violência estava embrenhada até nas obras mais inocentes e pueris. De volta para o futuro e Indiana Jones não são sobre violência. São obras sobre ciência, sobre inteligencia e sobre fazer a coisa certa. Por quê colocar tiro, porrada e bomba nessa mistura, então? Bom, a violência nesse contexto surge como um recurso narrativo, que serve para explicar algo de forma velada, o que normalmente é chamado de subtexto. Da mesma forma que caras com cicatrizes normalmente são usadas para identificar os vilões e o cabelo/maquiagem servia para separar a “mocinha” da “outra” (como se elas não coexistissem o tempo todo, né?), imageticamente. A ideia é que, ao ver o personagem, você rapidamente reconheça seu papel na trama. Na linguagem popular do cinema, bem como de outras mídias, a violência seria então um marcador de masculinidade. Como se ele apontasse para o personagem e te dissesse “está vendo esse cara aqui? Ele é violento, e portanto, é um homem”.

Mas por quê então a violência e/ou a agressão são usada como subtexto para definição de papéis masculinos? O motivo disso é uma coisa que existe há centenas de anos e que transforma caras legais e inteligentes em babacas que não sabem conversar. É o que faz os homens serem líderes em suicídio e maiores vítimas e autores de homicídios no mundo inteiro. É o que faz o cara legal, pai de família, arrumar uma briga no trânsito e acabar morto. É o que faz pais passarem a vida inteira sem dar um beijo no filho e falar que o ama, e que transforma esse filho na criança ou adolescente que vai aprender que o contato físico, para o homem, é sinônimo de agressão. É o que nos faz acreditar que o homem não sente, a não ser raiva e vontade de brigar, e o que impede amigos de se abraçarem e de chorar juntos, de tristeza ou de alegria. Lágrimas masculinas, só se for piada ou no estádio de futebol. A violência sempre esteve por aí, mas agora, como um fantasma do Scooby Doo, parece estar sendo desmascarada. É a tal da masculinidade tóxica.

Por sorte, nos últimos anos, consigo farejar uma mudança. O último filme que me fez chorar igual um condenado foi, inclusive, bem violento. No final de Logan, último filme de Hugh Jackman no papel do X-Men Wolverine, o anti-herói luta incansavelmente até a morte para proteger a fuga de sua filha genética recém descoberta e seus amigos. Ao morrer, segura a mão da filha, e revela que sabia que seu fim seria assim: Em uma poça de sangue, segurando o seu coração na mão. Logan dá o último suspiro, mas o canadense morre com um propósito, e diz, ainda que não diga, que ama a filha. O canadense encrenqueiro e durão então chora, não pela primeira, mas pela última vez.

Quando vi esse filme pela primeira vez, estava com um amigo no cinema. Engoli o choro, mais de uma vez. Quando conversamos, dias depois, falamos daquela cena e comentei com ele:

— Cara, eu não chorei de vergonha, porque você estava lá.
Ele me olhou, meio envergonhado, e sorriu:
— É, eu também.

Rapaz, até o Wolverine chora. Quem a gente pensa que é?

Confira mais textos do colunista: www.socialbauru.com.br/author/eugeniomira.

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