Navegar foi preciso para o meu aprendizado conquistar porto seguro. No histórico Ciclo das Navegações, colonizadores portugueses utilizavam pedras como barreiras impeditivas a invasões. Com o tempo, o incessante contato da água com as pedras faz romper e dissolver toda rudeza e rigidez alomórficas, transformando-as em rochas lisas, basálticas.

Assim somos nós. Iniciamos nossas vidas como pedras pontiagudas, com excessos, deformações. O contato com outras pedras, cujos pesos, características, formações, cores e tamanho sejam diferentes, recompensadas são com nova geometria. Na verdade, o impacto frente a correntes e a atritos, tornam-nas redondas e brilhantes. As convivências, embora provocadas a fricções, projetam nossa evolução, nosso melhoramento coletivo. Pudera! Pedra com pedra é socialização. Pedra em pedra, transformação. Pedra sobre pedra, construção. Agora tudo faz sentido. Pedras que elegem a solidão à sombra de margens emudecidas são como casais vítimas de traumatismo amoroso. Amantes rasos mergulhados em relacionamentos profundos.

Por outro lado, compreensível a Igreja eleger o símbolo “Petrus: tu és pedra e assim permanecerá.” Assim, em pueril idade, concentrava-me em meu recolhimento. Assim, a reza tornava-se uma oração muda. Assim, meus lábios agitavam-se imperceptivelmente. Assim, bocejava um santo respeito. A vida assumia em mim contornos de uma cláusula pétrea. No exercício da minha constituição, igualmente a um vassalo, curvava-me à suserania imutável das minhas pontuais obrigações. 

Na verdade, viver em estado de pedra é reconhecer a solidão das margens, a estaticidade da vida, a imobilidade do tempo. É verdejar em lodos. É demarcar vida agreste. É obstaculizar caminhos de Drummond. É derrotar Golias. É conduzir a morte de Estêvão sob consentimento de Saulo. É ser suporte para valados. É desassossegar vesículas.  As pedras definitivamente estão mortas. Porque estão mortas, as pedras são desprovidas de clivagens. Desconhecedoras de orgias sexuais. Desguarnecidas de permutação de genes. Desabastecidas de ejaculação. 

 Enquanto encerro essa ordinária reflexão, a inquietação de minha caçula, na tentativa de realizar uma atividade para a qual é desprovida de aptidão, convoca minha atenção. Imediatamente acolho sua falange afoita, recorrendo à sabedoria de Heráclito. “Filha, a pedra que no papel inútil é para desenhar uma reta, dentro d’água realiza círculos perfeitos.” Desculpe-me, Elis Regina. É pau, é pedra, mas a sabedoria afirma não ser o fim do caminho.

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