Caetano Veloso está a 200 km/h na Rodovia Marechal Rondon. Seu destino: Bauru, a cidade sem limites. A rodovia tem limites: 110 km/h para veículos de passeio, como o Ford Ka 1.0 verde-esmeralda do compositor. Seu carro tem apenas duas portas, e ambas as janelas estão abertas, por onde entra uma ventarola tremenda que se confunde com o som do seu rádio. Faz tanto barulho que é quase silêncio: não se ouve nada, nada é distinguido. Um pen drive azul está conectado e reproduz o pacote MP3 das 100 melhores canções brasileiras de todos os tempos. Por onde passa na rodovia, ultrapassando caminhões em descidas, e motocicletas nas curvas, Caetano é seguido por flashes, de repente, zoom, ganha mais alguns pontos na carteira. Caetano não passa despercebido, está no radar, mesmo com quase 80 anos, a 200 km/h, microcomputadores anotam a sua placa, fazem a sua identificação. O sol nos limites de Bauru está de rachar mamona: Caetano dirige sem camisa, o peito aberto às novidades. No suporte ao lado do câmbio manual, uma lata de Coca-Cola esquenta, já longe do seu posto de origem refrigerada.

A cidade estava em festa. Toda a população se mobilizou com antecedência de uma semana para receber o compositor. Mesmo haters e inimigos do seu cancioneiro. Todos estavam encucados, ensimesmados, a dúvida pairava entre as rotinas do cotidiano. Não se falava em outra coisa. O que ele vinha fazer em Bauru? Ninguém sabia. Tinha parentes aqui? Ninguém sabia. Um affair? Ninguém sabia. Mas o fulano tinha dito ao beltrano que avisou o sicrano sobre a chegada do baiano. O dia? Talvez sábado, talvez domingo. Alguém disse que um tal de 123 de Oliveira 4 sabia onde o compositor iria se hospedar. Onde? Em um hotel perto do Parque Vitória Régia. A desinformação reinava. Convenhamos: naquela altura do campeonato, com Caetano a 200 km/h, ninguém queria saber o que ele viria a fazer em Bauru, quando viria, onde ficaria. Queríamos comemorar! A cidade estava em festa. Com tanta falação e ouvindo alternados disses-me-disses, até mesmo a imprensa publicou, finalmente, na primeira página em letras garrafais: BAURU SITIADA PELA VISITA DE COMPOSITOR BAIANO.

A população reclamou, ninguém estava com medo. Pelo contrário, o clima era celebrativo, a cidade estava em festa. Até mesmo a prefeitura tinha alugado um sistema de som reforçado, para caso o compositor realmente aparecesse, e quisesse fazer um show no Vitória Régia. Turmas do ensino fundamental também se mobilizaram para retirar todo o lixo entulhado no gramado do parque. Fãs fizeram vigília entre as árvores para não perder a suposta aparição do compositor. Pintores repaginaram a arquibancada nas cores da bandeira da Bahia. A Associação de Senhoras da Cantina fez um abaixo-assinado, entregue à Secretaria de Educação, para que fossem dispensadas no dia da visita do baiano, queriam vender salgados e refrigerantes durante o show. Céticos se  perguntavam a partir de qual momento a população bauruense tinha ficado tão fã de Caetano Veloso. Ninguém comprava mais discos. Mas o fato incontestável é que Bauru gostava mesmo das novidades, dos ineditismos. Bauru é uma cidade do interior paulista. E bastava uma fagulha para alguém acender uma fogueira de São João, saudosa e calorosa, e toda a população tentar pulá-la. A fagulha de Caetano Veloso durou uma semana. Passaram-se sete dias e ninguém mais falava sobre isso ou cantava no banho, às vezes, no silêncio da noite.

Foi em uma terça-feira, não sei, quarta-feira, sei lá, quase ao final da tarde, ao entardecer, passada uma semana do boato, que o Ford Ka 1.0 verde-esmeralda foi visto na Avenida Nações Unidas. Caetano Veloso estava ao volante, sem camisa, mas não estava mais a 200 km/h, estava parado no sinaleiro. Estacionado. Um menino que jogava limões na faixa de pedestre se aproximou: Tio, me dá essa Coca-Cola? Caetano prontamente respondeu: essa está quente, viajou muito, está cansada, perdeu o gás da empolgação. Tome estes cinco reais e compre uma novinha pra você. O semáforo deu verde, Caetano arrancou, contornou a avenida e retornou para a rodovia.

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