Bauru é ficção e está no mapa. Filha mais velha das cidades-irmãs próximas e distantes: Bacurau, Asa Branca e Sucupira. Três irmãs ficcionais. Bauru é a irmã deslocada porque se tornou real demais e existe. Revoltou-se. Saltou do filme, saltou do livro, saltou da novela. Da tela pra terra.

Explico: o mesmo país que deu origem às três também é pura terra bauruense. E a mesma planta que cresce e enverga na ficção também nasce em Bauru. Dá frutos gostosos, suculentos e à venda. Quem nasce em Bauru prova desse fruto de verdade com gostinho de ficção e ainda tem uma digestão surpreendente. Fruto que despenca da copa e cai na cabeça de quem não está entendendo nada – e continua por não entender.

Por mais avessa aos costumes, toda família tem semelhanças. Uma família de cidades como essa parte do som de seus topônimos para a primeira coincidência: as quatro irmãs têm nomes muito parecidos. Perceba: Bauru, Bacurau, Asa Branca e Sucupira têm praticamente as mesmas vogais, usam e abusam de A e U. Apenas Sucupira desponta por uma nova vogal I e está ilhada por essa posição. Em seguida, os quatro nomes têm mania de explosão na fonética tal qual em suas narrativas, e por isso, brindam e possuem as consoantes oclusivas e bilabiais B e P, como a matriarca Brasil. Por fim, vale a consideração notável ao efeito do R tepe, caro a todas elas: -ru, -rau, -ran e -ra, saudando a mãe -rasil.

Atentemo-nos agora às suas narrativas: a principal aproximação entre as irmãs está em suas histórias de vida enquanto município e seus personagens. Todas vivem causos peculiares e despontam para um realismo fantástico à la Rubião, Veiga e Márquez. Revelam-se como cidade mítica, centro irradiador de um mito cuja história é ubíqua a todos os bairros. Um mito do herói que nasceu ali e fugiu. A voz do povo fala: onde está o herói e seu glorioso retorno?

Vive-se assim o enredo sebastiânico que entrelaça política e religião. Nas três irmãs da ficção, um Sebastião volta à sua cidade natal para defendê-la do mal pungente e vigente. Em Sucupira, este é Zeca Diabo, um pistoleiro que mata o prefeito. Em Asa Branca, é Roque Santeiro o mito do coroinha em cuja reputação se ancora a economia local. E em Bacurau, é Lunga quem revitaliza o vilarejo dos invasores americanizados. Contudo, como este mito se sucede na irmã deslocada?

Precisamos desvendá-lo. Quem está no mapa tem mais mistério. Vide as outras três narrativas, é preciso buscar um acontecimento pitoresco que entrelace a fé e o poder para descobrir e evocar a imagem do mito. Arrisco sugerir um episódio que em Bauru salta aos olhos e pula da terra para a tela para ser o nosso fio da meada, o conflito irradiador: voltemos ao século passado, precisamente em 1913.

Para reformar a grandiosa Praça Rui Barbosa no lugar de um arraial de terra, o prefeito de Bauru Bento da Cruz decide demolir a Capela do Espírito Santo que estava no meio do seu caminho. A religião é contra a decisão. E na calada da noite, contrariando a diocese, o santuário vem abaixo a marretadas. Ao amanhecer da descoberta, o bispo dom Lúcio Antunes de Souza, pelo ruído das ruínas, “excomunga” a cidade de Bauru, sob o ato de direito canônico chamado “interdicto”. Políticos e religiosos discordam-se fervorosos.

O nosso conflito para Bauru é bom. É peculiar, é realista, é fantástico, é mítico. Mas quem encarna o mito? Quem salva Bauru da “maldição” lançada sobre a cidade, o nosso mal pungente e vigente? O fato é que as quatro irmãs – Bauru, Bacurau, Asa Branca e Sucupira – têm a melhor das casuísticas para a fantasia. E Bauru, por ser real demais, tem história que não termina e se escreve todos os dias. Quem é o mito? Quando virá? Virá que nós vimos: em Bacurau, Roque Santeiro e O Bem-Amado.

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