Sabe, Bauru, eu não lembro a primeira vez que fui ao cinema. Não lembro quantos anos eu tinha, qual filme passava, qual cinema era. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, eu me lembro muito bem uma específica vez que fui ao cinema. Na infância. É a minha primeira memória relacionada ao cinema. Vamos considerar aqui, pela memória, como a primeira vez que de fato fui ao cinema.

Lembro meu pai e eu, de mãos dadas, no centro de Bauru, caminhando pelas ruas, as cenas esparsas, as falas entrecortadas, o comércio vivo. Eram férias, provavelmente. Caminhávamos em direção ao cinema. Entenda isso: caminhar em direção ao cinema. Dirigir-se ao cinema. Ir ao cinema. Entenda isso: o choque, o encontro, a importância da experiência. A visita ao cinema. O cinema enquanto espaço, o cinema como ponto de chegada e partida, o cinema presença.

Sabe, Bauru, chegamos meu pai e eu, de mãos dadas, à bilheteria. E como em um filme de comédia, vimos o horário da sessão errada no jornal impresso: única forma remota de sabê-lo. Vale destacar: fomos ao cinema, mas não vimos o filme. Fomos ao cinema. O filme não estava passando. Quem passava éramos nós, passávamos por ali, como quem se prepara para pernoitar mas só fica 5 minutos, tempo de um cafezinho. Passagens. Saímos do cinema que tinha calçada, frustrados, as expectativas rompidas. Mas mesmo assim, meu pai me contava com muito sabor as suas lembranças com aquele cinema, especialmente, as memórias das datas comemorativas como o Dia das Bruxas, em que todo o cinema ficava caracterizado, um caixão no banheiro, à meia luz, um vampiro atrás da porta. Eram informações perigosas para mim, me levavam ao delírio.

Sabe, Bauru, acho interessante te contar como deste episódio eu sinto a diferença vibrante entre ver um filme e ir ao cinema. Ver um filme é uma coisa. Ir ao cinema são outras coisas. O ver é estático, o ir é dinâmico. Quando vou até este cinema, o cinema destas memórias, hoje vejo ruínas. Vejo o cinema que era dinâmico: estático. Vejo uma estátua. Uma fotografia dos últimos tempos. Vejo uma decisão. Vejo muitas ausências. Vejo um vazio de alvenaria. O cinema ainda está ali? Não sei te responder, talvez sim, talvez não. Talvez um bando de universitários um dia leve 1 gerador, 1 banquinho, 1 projetor, 1 notebook e 1 caixa de som para exibir um filme sobre as ruínas. Não seria de mau grado, seria uma nova experiência. O cinema a céu aberto, o público sentado sobre alguns escombros, a projeção sob a grama alta. Dos prédios vizinhos, algumas famílias assistiriam ao filme. Qual?

Sabe, Bauru, ver um cinema demolido me faz pensar como os cinemas morrem. Para onde vão, o que sobra? Qual o último filme que exibiram? Os cinemas estão em extinção? Eu chuto que não. Ir ao cinema nunca será apenas ver um filme. E como é gostoso lembrar que antes tínhamos cinemas nas ruas, o cinema popular, o cinema que tinha calçada. Estamos falando de outra experiência. Entre a tela e a rua, eu fico com a rua. Mas da tela, abri em um grupo do Facebook o seguinte comentário: “o gerente era o Vitor, o porteiro Sebastião, o lanterninha Itamar e o baleiro Chico”. Uma verdadeira trupe do cinema. Esta trupe provoca este texto. E faz companhia porque também faz cinema. Não estamos falando aqui de cineastas. E sim, de entusiastas do cinema. Ir ao Cine São Rafael, onde todos trabalhavam, também era encontrá-los e partilhar de uma vivência coletiva. Comprar bilhetes, girar o baleiro, despistar o porteiro, camuflar-se do lanterninha.

Sabe, Bauru, nesta pandemia houve quem jurasse de pés juntos que o cinema não iria voltar. Que os filmes já estão aí, a um toque de tela, a um app, a uma conexão 5G. Pois digo: tentem demolir. Tentem apagar da memória e falhem miseravelmente.

Aposto, Bauru, que você tem uma história dentro de uma sala de cinema. Porque não é apenas uma sala, é a sala das narrativas. A sala dos negativos que apontam sempre para o sim. Sim, para viver esta história. Sim, para a história da tela. Sim, para todas as histórias. A sala das narrativas que correm paralelas: a minha, a sua, a da fileira de trás, a história do filme, do lanterninha que pensa que ainda faltam duas sessões para encontrar sua família. Tentem demolir. Mas a experiência não acaba. É dinâmica. E mais do que nunca, precisamos dela. Qual foi o último filme que você viu em uma sala de cinema, Bauru? Quando você foi ao cinema? Repito, não falo de ver um filme. Falo: quando você foi a última vez ao cinema?

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